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Programa Sindirim (Digestão) II — 2019
Programa Sindirim (Digestão) II — 2019 19 de outubro de 2019

CONCRETO

Rastros de amianto e a memória ambiental do corpo; os cães de Istambul e os caminhões amarelos; o manifesto das plantas da ruína

Participantes: Halil Yetiş, Civan Tekin, Alper Şen, Aslı Odman, Mine Yıldırım, Volkan Işıl, Barış İne, Sevil Baştürk, Kerem Ozan Bayraktar, Elmas Deniz

Moderadores: Serkan Kaptan, Ayşe Ceren Sarı, Yasemin Ülgen

O Sindirim é o segundo programa concebido pelo coletivo birbuçuk no âmbito da 16ª Bienal de Istambul (2019). Ao contrário do Solunum (2017–2019), coloca no centro não conceitos abstratos, mas objetos cotidianos — concreto, batata, gasolina, água, processador. Cada objeto percorre duas etapas: em sessões preparatórias fechadas, pesquisadores, artistas e ativistas discutem o objeto a partir de suas próprias práticas; em sessões públicas, essas discussões são abertas ao público em diferentes espaços de Istambul. O texto a seguir é o registro editado da quarta sessão pública, realizada no WORLBMON (MSGSÜ Museu de Pintura e Escultura de Istambul) em 19 de outubro de 2019. As identidades dos participantes estão registradas no início; ao longo do texto, as vozes se entrelaçam, traçando o percurso de um pensamento coletivo. A sessão aconteceu em formato maratona — apresentações consecutivas, performances e perguntas e respostas; as exibições de vídeo e as seções performáticas não estão totalmente refletidas na transcrição escrita.

A RAZÃO PELA QUAL ESTAMOS AQUI

A abertura começa com a confissão habitual: não sabemos. Não sabemos o que vamos fazer, mas o sétimo continente está dentro de nós, em nosso sangue, em nossos cérebros. O encontro do concreto é a quarta parada do programa Sindirim e desta vez o objeto é tão pesado quanto a própria cidade. Transformação urbana, movimentos urbanos, práticas do comum, amianto e seus rastros no corpo, ecologia urbana — tudo o que gira em torno do concreto nos puxa para dentro de Istambul.

Mas primeiro um vídeo é exibido: "1457 Ankara'dan Kesik." No cinturão de asteroides entre Marte e Júpiter há um asteroide de número 1457, e seu nome é Ancara — esse corpo celeste, descoberto por um astrônomo alemão, recebeu o nome da capital da Turquia. O documentário narra a destruição de Ancara através da monografia de um burro. Um trecho de quinze minutos do filme de sessenta minutos — a morte dos monstros amarelos, a organização contra a demolição.

Depois, alguém da academia sobe ao palco, e a narrativa começa na França. Henri Pézerat, toxicologista, trabalha em 1974 na Universidade de Jussieu, em Paris. Os experimentos em seu laboratório produzem constantemente resultados errados — nenhum teste se sustenta. A razão: fibras de amianto caindo do teto; um veneno flui sob as belas paredes do novo edifício. Pézerat não deixa a descoberta isolada: transforma-a em uma campanha entre os sindicatos da universidade. No mesmo período, as trabalhadoras da fábrica Amisol, que produzem fitas de amianto para o exército francês, ocupam a fábrica — não vamos ceder nossa fábrica, não vamos ceder nossos empregos. A equipe de Jussieu vai até as trabalhadoras e diz "sim, a fábrica e os empregos importam, mas essa fábrica está matando vocês". Dois movimentos se encontram: da ação que sabe e do saber que age nasce um movimento popular.

Quem fala vem da Assembleia de Saúde dos Trabalhadores e Segurança no Trabalho. A questão são os rastros que todos os desastres ambientais deixam no corpo do trabalhador. O filho de Pézerat fez um documentário: "Les Sentinelles" — sentinela, guarda, mas mais no sentido de "continuar ouvindo algo". O esforço de persistir em ouvir uma realidade que está sendo constantemente encoberta e mantida fora do nosso olhar. A saúde dos trabalhadores é o primeiro observador da saúde ambiental — os primeiros rastros são lidos naquele corpo.

A história retorna à Turquia e se fixa no próprio local do evento. Esse evento da Bienal ia originalmente ser realizado na Tersane Istanbul — um local no Corno de Ouro, um espaço de patrimônio industrial. Mas materiais contendo amianto nos antigos edifícios não puderam ser removidos durante as obras. Relatórios independentes foram obtidos, o procedimento foi conduzido — um processo de informação que, excepcionalmente, funcionou bem num evento frequentado por centenas de milhares de pessoas — e o evento foi transferido para a Mimar Sinan.

"A razão pela qual estamos aqui é o amianto."

O amianto não é só industrial: na Turquia, ele também ocorre naturalmente. A erionita, vinda da história geológica da Capadócia, é uma fibra natural semelhante ao amianto. İzzettin Barış e alguns pesquisadores trabalharam nesse tema por anos. Mas o amianto industrial é uma história diferente. A fábrica İzocam em Dilovası começou a produzir em 1967 e, em 2006, passou a ter como sócia a Saint-Gobain, que já foi a maior empresa de amianto da França. Ela despeja todos os seus resíduos em um terreno de dois decares (0,2 hectare); quando a lã de vidro se mistura com o entulho com amianto dos arredores, cria-se um ambiente incrivelmente tóxico — a fábrica está aqui, os resíduos estão aqui, as pessoas também estão aqui. Nas instalações cerâmicas da Eczacıbaşı em Bozüyük, milhares de operários trabalham e as taxas de silicose são alarmantes. Os trabalhadores são forçados a escolher entre o pão e a vida. Um sindicato pelego os representa, e o número de doenças ocupacionais notificadas é zero — ninguém morre, de acordo com os registros oficiais. O amianto vive como mineral no subsolo, como indústria nos pulmões do trabalhador, como ocultamento nos relatórios do Estado. As empresas que financiam eventos artísticos e as empresas que adoecem trabalhadores são as mesmas; como não se consegue financiamento público, fica-se obrigado a aceitar esses patrocínios.

UMA ISTAMBUL SEM CÃES

A segunda seção vem das periferias de Istambul, das feridas abertas pelos megaprojetos. Uma associação caminha pelos bairros há anos — em áreas que passam por transformação urbana, cujos moradores foram removidos à força, que lutam com problemas de saúde pública. Kirazlıtepe é uma delas: entulho contendo amianto de demolições, precisamente o problema de saúde pública para o qual a apresentação acadêmica havia alertado. Cada caminhada é um esforço de mapeamento, de arquivamento — em diferentes línguas, com diferentes ferramentas, às vezes vídeo, às vezes mapas, às vezes publicações semiacadêmicas. Porque Istambul muda tão rapidamente que até manter um registro é uma luta.

A Rodovia do Norte da Mármara, o terceiro aeroporto, a terceira ponte — uma série de projetos que começam com concreto e terminam com concreto, supostamente iniciando com demolição e terminando com construção. Mas nas páginas ocultas do processo de construção há o isolamento de animais. Cães vadios são recolhidos em caminhões e despejados no canteiro de obras da rodovia — sistematicamente, centenas, milhares deles. A prefeitura não coloca brincos de identificação nos cães, não há contagem, o culpado não pode ser identificado.

Quem foi ao local filmar um documentário conta: imagine centenas de cães correndo em sua direção quando você chega. A maioria está com fome, a maioria está com sede. Quando você traz comida, eles estão desidratados demais para comer. Até a barragem atrás deles foi danificada, não lhes deixaram nenhuma fonte de água. Uma vasta área, sem sombra — os cães tentam se abrigar à sombra dos guindastes. Como a estrutura é de ferros cruzados, não se forma uma sombra inteira, só um rastro. Os cães tentam se enfiar naquela penumbra.

Há um ambiente pós-apocalíptico. Algo como um cenário de fim do mundo, e isso dentro de Istambul.

Molossus — o grande cão da Grécia Antiga. Os cães de rua domesticados da cidade acabam na traseira dos caminhões amarelos, exterminados e descartados. Durante anos, um pesquisador contou os cães um por um e montou um arquivo. Mas, nos últimos tempos, a prefeitura parou até de colocar os brincos — assim, não há contagem, o culpado não pode ser identificado. Às vezes três, cinco cães; às vezes dezenas, centenas. Os caminhões amarelos carregam entulho de escavação com amianto, e carregam também os cães — entulho e seres vivos no mesmo caminhão, na mesma direção, tudo que a cidade não quer ver seguindo para o norte. O tema do concreto oferece, assim, a possibilidade de olhar para os agentes do sistema, os fortes, os poderosos, a partir do lixo, dos escombros, da perda.

AS PLANTAS DA RUÍNA

O palco escurece e um manifesto começa — pela boca das plantas:

"A destruição sempre existiu. Mesmo antes dos macacos. Para eles a destruição, para nós a vida."

Plantas ruderais. Os primeiros habitantes das áreas de ruína — espécies que vivem não em jardins botânicos, estufas, parques ou vasos, mas nas fissuras da pedra cinza, no lixo, nas ruínas, sob as pontes, em terrenos queimados, à beira das rodovias, em buracos de obra, em todos os vazios da cidade. As ervas daninhas aprenderam a língua dos humanos. Nas primeiras cidades estabelecidas, onde a guerra eclodiu pela primeira vez, foram as primeiras a brotar. Infiltraram-se em sementes, invadiram campos, cruzaram de continente a continente nos estômagos dos pássaros, na saliva dos cães, nos pneus dos carros.

Essas plantas não precisam de troncos imponentes, frutos grandes e saborosos, flores vistosas para sobreviver. Preferem não o indivíduo, mas a pluralidade; não uma vida longa, mas a transitoriedade de uma existência nômade. Solos sem nutrientes, muito úmidos ou muito secos, muito alcalinos ou muito ácidos — nada disso é problema para elas. As classificações do ser humano são incoerentes: o que ele admirava duzentos anos atrás, hoje declara nocivo; o que um dia declarou nocivo, hoje coloca sob proteção.

O manifesto zomba da ecologia romântica: "Elas não precisam de heroísmos ecológicos, das falácias da reciclagem e da reabilitação, de serem salvas. Elas não são objetos a serem consertados." Porque elas continuarão a se multiplicar à medida que o mundo é destruído. Cada ordem cria nova destruição, cada instalação novo resíduo, cada construção novo lixão, cada lixão novo recurso, nova vida. Elas sobreviveram a eras glaciais, revoluções agrícolas, guerras mundiais — porque são desastre, caos, oportunidade e invasão.

E a linha mais provocadora:

O ser humano é um parasita. Ele não consegue produzir nutrientes como uma planta. Ele não consegue sobreviver sem cortar, fragmentar, matar e comer a planta.

Mas o ser humano também é o melhor parceiro das plantas ruderais. Ele desmata florestas, cria lixões, abre estradas, cava canais — onde quer que haja destruição, as ervas daninhas crescem. A planta não é um objeto a ser romantizado, mas um agente que vive ao lado da destruição, alimentando-se da destruição, transformando a destruição em vida.

O PASSADO FOI ENTERRADO NO CONCRETO

No palco, alguém da arte faz um bolo com cimento, Kalekim (uma cola para azulejos) e água. Com Kalekim, ao que parece, fica mais gostoso. Na infância, na aldeia, não havia confeitaria — bolo era um luxo, uma marca de classe. Agora tenta chegar ao ponto do bolo com o material desse luxo, o material do concreto — acrescenta um pouco de água, mexe e diz: "Não levo jeito, é a primeira vez que faço bolo com concreto." A performance é uma metáfora concreta da transformação de classe; a inexperiência faz parte da obra.

Nos anos 1980, na aldeia, havia casinhas em meio a jardins verdes. Todos estavam contentes. Depois uma transformação começou: as casas foram demolidas e deram lugar a prédios com lojas embaixo e apartamentos em cima. Esses prédios tomaram conta de tudo. O córrego que corria ao lado da casa foi enterrado no concreto. A grama no pátio da escola foi concretada; como a população aumentou, outra escola foi construída no pátio. O enorme jardim e as figueiras de İsmet Teyze e Abdullah Amca foram derrubados, e no lugar surgiu um prédio.

Lentamente, todo o passado foi enterrado no concreto.

O concreto tem uma dimensão de classe. Para as pessoas que migraram da aldeia para a cidade, o concreto era o símbolo da modernização; trocar o jardim pelo apartamento era uma ascensão. Mas essa ascensão enterrou córregos, jardins, figueiras, memórias de infância. Quem está no palco conta que, certa vez, estava no supermercado com alguém do círculo de amigos, viu uma flor e quis falar dela. A resposta: "Feia, um lado está torto." Para essa pessoa, uma planta tem que ser magnífica — se um lado morre, se um galho cai, é ruim. Mas quem tem uma relação com a terra sabe: um lado de uma planta pode morrer, um galho pode cair, as estações passam. "Vocês já plantaram uma lavoura?", vem a pergunta do palco para a plateia — é algo como perder a colheita, não se parece com comprar algo no supermercado.

A POSSIBILIDADE DE OUTRO MUNDO

O único portador de esperança no encontro do concreto vem de uma horta comunitária. O Roma Bostanı — uma horta que vive no coração de Istambul como prática do comum. Nascida após o Gezi, ou melhor, correndo atrás da possibilidade que o Gezi abriu.

O Gezi foi uma intervenção em um espaço público. Lá reconstruímos a vida em uma cidade. A possibilidade de outro mundo caiu no coração de todos nós.

O Roma Bostanı é a forma concreta dessa possibilidade: permacultura, solidariedade de bairro, transformação por trabalho próprio, política aplicada. Uma prática que se mantém de pé num contexto em que criar novos espaços verdes parece impossível; que toca a terra, que planta. Todas as práticas formadas após o Gezi — hortas comunitárias, cooperativas, redes de solidariedade — correm atrás dessa possibilidade.

A sessão de perguntas e respostas ganha profundidade inesperada. No encontro da batata da semana passada havia alguém de Kars que vive da lavoura — queijo, agricultura, um vínculo com a terra — e surgiu no salão um sentimento de esperança, uma confiança de que as coisas podem mudar pelo toque. À medida que nos aproximamos da cidade, desconectados do solo, nos afastamos da linguagem antirromântica das plantas e nos fechamos em nós mesmos. Alguém questiona a falsa divisão entre cidade e campo: idealizamos o campo, imaginamos uma aldeia distante — mas os grupos de capital que transformam ambos são os mesmos. A Cengiz está construindo o terceiro aeroporto aqui enquanto constrói uma hidrelétrica lá. Os atores são os mesmos, as ferramentas são as mesmas, o poder é o mesmo. Além disso, com a lei metropolitana aprovada em 2004, Istambul oficialmente deixou de ter área rural. Trinta metrópoles não têm área rural — todas as aldeias se tornaram bairros. De qual campo estamos falando?

Outra voz expressa a falta de saída: em um planeta que passou por cinco grandes crises, a nossa é uma delas. Não consigo encontrar nos livros por que preciso defender a biodiversidade. O que encontro é bárbaro, antropocêntrico — em última análise, propõe sistemas que destruirão outros seres vivos. Não sei o que é a justiça absoluta.

Nessa escuridão alguém conta uma história que mistura morte e vida: explicava a morte à filha dizendo "seremos minhocas, seremos flores, seremos insetos". As crianças, aos cinco ou seis anos, tomam consciência da morte e perguntam, e a morte é narrada através da vida. O que se diz à filha no dia a dia precisa se refletir também na luta — avançar sem vencer, sem ter razão, tecendo o processo. Se levarmos o pensamento até o fim, tudo desmorona de qualquer forma — mas o processo em si carrega uma sabedoria. Podemos descer juntos daqui até Galataport, alguém diz — o próprio local é uma ironia, estamos bem no meio da transformação do patrimônio industrial em consumo de luxo.

Quem trabalha com reciclagem, se falasse, diria "a reciclagem nos arruinou", diz alguém — porque até na sua cabeça a reciclagem é aquele conceito limpo das propagandas da prefeitura. Mas o que é definido como resíduo vale dinheiro; os conceitos definidos como ecologia são absorvidos pelo mercado. Transformação urbana em Berlim: as lojas Aldi fecham, ecomercados abrem no lugar — o mesmo produto é vendido pelo dobro ou pelo triplo do preço. Por um tempo se falou em "reciclagem urbana", um conceito muito agradável — porque é uma palavra que faz tudo florescer. Narrativa ecológica, um novo instrumento de capital. O Roma Bostanı pode fazer algo, mas um setor também comprará os mesmos conceitos e venderá outra coisa.

Uma voz propõe pôr as lutas em comum: relacionar o relato da resistência do Vale de Dikmen com o relato do Roma Bostanı. Os Jardins de Hevsel. Mostrar que isso não é uma alienação, que, no centro ou na periferia, essa resistência é compartilhada — multiplicar espaços, conectar uns aos outros.

Quando o encontro do concreto deixa o salão, algumas coisas ficam: a violência invisível do amianto, a impotência dos cães à sombra do guindaste, o manifesto das plantas ruderais nascido da destruição, a consistência amarga do bolo feito com concreto, e a tenacidade verde de uma horta comunitária. Quando olhamos para a cidade, nos afastamos do tom esperançoso dos encontros da batata e da água — mas as plantas ruderais propõem precisamente nesse afastamento um modelo de vida: crescer onde há destruição.