PROCESSADOR
O planeta como o grande processador; brincar como crianças enquanto há tempo; como ser fã do Tarkan do clima; o caracol heroico da economia decrescente
Participantes: Deniz Çevikus, Eymen Aktel, Ömer Madra, Ulya Soley, Deniz Tortum, HAH (Ahu, Murat, Ayça, Gizem), Ethemcan Turhan, Irmak Ertör, Aslı Dinç
Moderadores: Serkan Kaptan, Ayşe Ceren Sarı, Yasemin Ülgen
O Sindirim é o segundo programa concebido pelo coletivo birbuçuk no âmbito da 16ª Bienal de Istambul (2019). Ao contrário do Solunum (2017–2019), coloca no centro não conceitos abstratos, mas objetos cotidianos — concreto, batata, gasolina, água, processador. Cada objeto percorre duas etapas: em sessões preparatórias fechadas, pesquisadoras, artistas e ativistas discutem o objeto a partir de suas próprias práticas; em sessões públicas, essas discussões são abertas ao público em diferentes espaços de Istambul. O texto a seguir é o registro editado da quinta e última sessão pública, realizada no WORLBMON (MSGSÜ Museu de Pintura e Escultura de Istambul) em 26 de outubro de 2019. As identidades dos participantes estão registradas no início; ao longo do texto, as vozes se entrelaçam, traçando o percurso de um pensamento coletivo. A sessão aconteceu em formato maratona — apresentações, performances e perguntas e respostas consecutivos em duas sequências; as experiências interativas e as seções performáticas não estão totalmente refletidas na transcrição escrita.
BRINCAR COMO CRIANÇAS
O último encontro. O quinto objeto. Água, gasolina, batata, concreto — e agora processador. É chamado de "grande processador": a própria natureza, o próprio planeta. A abertura começa com a confissão habitual — não sabemos, o sétimo continente está dentro de nós — mas desta vez o final da frase é diferente: "Não nos resta muito tempo. Assumir responsabilidade pelo passado, pelo presente e pelo futuro não é mais uma opção." O centro do processador são os imaginários do futuro: no limiar da extinção, o que o futuro pode ser?
A primeira cena pertence a duas jovens ativistas climáticas. Uma do movimento de Greve Climática das Sextas, a outra da Extinction Rebellion. O ativismo é partilhado não como narrativa, mas como experiência: na greve do Boğaziçi, um gato se sentou entre os cartazes e todos brincaram com ele. Em Sinop, as crianças correram para o parque depois de organizarem suas próprias greves. Uma criança pequena — Masal — olhou para a câmera e disse "Eu sou Masal Ocak. Sou amiga do clima." Em imagens dos bastidores de gravações de vídeo todos estão rindo, sendo bobos, se divertindo. De repente algo dá errado num vídeo — "misturei, a forma como filmei faz a câmera ficar assim" — e essa inexperiência também faz parte da ação.
Brincar como crianças.
Essa frase é ao mesmo tempo um slogan e um método. Em vez de ser esmagada sob o peso da crise climática, encontrar alegria na própria luta. Divertir-se na greve, rir na ação, estar feliz enquanto passa o tempo junto. As crianças já sabem isso — o que os adultos precisam aprender é isso. As duas ativistas enfatizam: sempre conseguimos ter prazer de alguma forma; nunca abandonamos fazer algo juntas, levando a uma dimensão divertida. Em um vídeo filmado na Rússia, as ativistas fazem os motoristas que passam buzinarem — mas fazem isso não com desânimo, mas com prazer. Em Sinop foram ao cinema, uma câmera foi subitamente produzida, uma performance nasceu — não planejada, espontânea. Poder rir juntas, a parte menor mas mais valiosa da luta.
O GRANDE PROCESSADOR
A segunda voz pertence a uma apresentadora de rádio — uma das vozes mais persistentes da crise climática. Para falar sobre o grande processador ela começa com um gorila. Coco — um gorila a quem uma antropóloga ensinou linguagem de sinais ao longo de anos de trabalho. Antes da cúpula climática de Paris, perguntado "o que se tornará o estado do mundo?", a resposta de Coco: "Sou flor. Sou natureza. Amo as pessoas. Mas o humano é estúpido. A natureza precisa de reparo. O tempo está acabando." Logo depois, Coco faleceu, mas a mensagem continua.
Depois outra maravilha do grande processador: o araponga branco que vive na Amazônia consegue produzir 125 decibéis de som para chamar seu par — equivalente a uma perfuratriz de concreto. Essa descoberta acabou de ser publicada no The Guardian. Os tópicos da semana passada incluíam concreto; que um pássaro macho igual em som ao barulho de uma perfuratriz de concreto consiga produzir um som tão prodigioso para atrair uma fêmea é uma das coisas extraordinárias que o grande processador cria. Esse pássaro vive na Amazônia e, como seria de esperar, está em perigo — como a grande maioria das espécies em toda a Amazônia.
Não parece haver nada a fazer além da ação. Isso está muito claro.
Uma citação de capa do livro do fundador da Extinction Rebellion é citada: "A partir deste momento, o desespero termina e a tática começa." Onze anos restam — pelo cálculo do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas. Uma chance de cinquenta por cento de sucesso. Mas esses cinquenta por cento são nossa última chance. E ao se rebelar nessa última chance é necessário se divertir — até Roger Hallam diz isso.
COMO SER FÃ DO TARKAN
A terceira cena começa de um lugar inesperado: 12 de abril de 1993. O dia em que a primeira conexão à internet da Turquia foi estabelecida por meio de um projeto conjunto da ODTÜ e do TÜBİTAK. Em outubro desse mesmo ano, um Tarkan então com vinte e um anos se tranca em um estúdio em Istambul por três semanas e grava o álbum "Acayipsin." O álbum contém uma música: "Durum Beter" (A Situação É Pior). Tarkan, tendo perseguido ativamente fazer algo em relação ao clima, escreve essa música: as flores não estão brotando, poeira e fumaça, corações em perigo bebês — o mundo está queimando, o mundo está acabando, pensamentos sombrios. O início da era da internet e a consciência do colapso ecológico ao mesmo tempo. Nosso hino climático na verdade foi escrito há muito tempo — em 1993, muito antes de 3,5 bilhões de snaps serem enviados diariamente, antes de trezentas horas de vídeo serem carregadas por minuto.
Uma curadora e uma diretora sobem ao palco e compartilham o que estavam pensando ao preparar sua apresentação: como podemos escapar desses problemas. Suas perguntas são diferentes: não se a crise climática existe ou não — existe. Persuadir as pessoas também não é uma questão que elas estão fazendo atualmente — organizações como Açık Radyo, Extinction Rebellion e 350 já fazem isso muito bem. A pergunta real: pensar constantemente sobre a crise climática é desgastante e cansativo, consumidor — razão pela qual elas tentam falar sobre isso encontrando novos métodos. Pensando em diferentes métodos de comunicação, permanecendo constantemente frescas, preservando a esperança mesmo quando sem esperança, não se intimidando mesmo quando com medo. Como nos tornamos fãs do Tarkan?
Um vídeo é produzido das profundezas do YouTube: vinte e quatro pessoas o assistiram, quinze delas provavelmente elas mesmas. "Encontramos e trouxemos para vocês", dizem. Uma criança está fazendo perguntas ao pai sobre o aquecimento global — submetendo o pai a um exame. O pai responde à última pergunta como se memorizado, com calma extraordinária: qual é o pior cenário? "O colapso da indústria, preços de alimentos disparando, fomes em massa e morte." Nenhuma outra boca foi ouvida que possa dizer isso com tal calma. Essa calma é em si assustadora e engraçada ao mesmo tempo. O salão subitamente ri, depois fica em silêncio, depois ri novamente. Imagens, vídeos e memes que se espalharam rapidamente na internet desempenham um papel eficaz na comunicação da crise climática — cultura popular, humor, calma absurda são novas ferramentas.
Como nos tornamos fãs do Tarkan na comunicação da crise climática?
Em vez de ser paralisada pelo medo, circum-navegando ao redor dele. Às vezes olhar diretamente nos olhos da crise parece bem; às vezes é preciso circum-navegá-la. Cada pessoa precisa encontrar o que é bom para ela.
O CARACOL HEROICO
A quarta voz pertence a uma acadêmica — vinda da Suécia, deixando dois filhos pequenos com seu parceiro. Trabalhando em justiça climática. Ela começa sua apresentação fazendo o salão entoar slogans: "O que queremos? Justiça climática! E quando? Agora!" E compartilha uma anedota: quando quem entoa pela primeira vez ouve sua própria voz, ela soa estranha para elas. Como se rachasse, como se ficasse fina e se desmoronasse. Se você continuar gritando percebe que sua voz está se perdendo entre as outras vozes. Sua voz é envolvida pelas vozes da multidão pensando as mesmas coisas; você se dissolve. Essa voz é a sua voz como humanidade.
Prefiramos ser raivosas a compostas.
Voltando dez anos: Copenhague 2009. Naquele momento parte de uma mobilização acreditando no regime climático global, acreditando em soluções urgentes. Grande esperança, grande colapso. O governo dinamarquês declarou estado de emergência, ativistas nas ruas foram aterrorizados, muitos foram colocados em gaiolas, a cúpula não produziu resultados. O que foi aprendido desse colapso magnífico? Que não devemos cair na ilusão de que mecanismos internacionais de cima para baixo como o Acordo de Paris sozinhos resolverão a crise climática global. Nas palavras de Naomi Klein: precisamos que todos possam mudar tudo — mas quem é todos, o que é tudo? Estas são as perguntas reais.
A acadêmica coloca o ecomodernismo sobre a mesa. Partindo do conceito de Cidade Ciborgue do geógrafo marxista Erik Swyngedouw: as cidades hoje funcionam como metabolismos sócio-ecológicos massivos — imagine o Piccadilly Circus em Londres, humano e natureza entrelaçados, máquina e ser vivo inseparáveis. Mas o ecomodernismo apresenta esse entrelaçamento como uma solução: a ideia de destruir os monstros que criamos com os monstros que novamente criamos. Energia nuclear, captura de carbono, geoengenharia — todas extensões do mesmo hubris tecnológico, todas carregando uma pesada conta sócio-ecológica. Quem pagará essa conta? A promessa do ecomodernismo não é internamente consistente.
Então qual é a alternativa? Decrescimento econômico planejado — questionar o próprio crescimento. Quando não há crescimento todos veem catástrofe, chamam de crise — mas a continuação ilimitada do crescimento já é em si catástrofe. As palavras de Eduardo Galeano: "A utopia serve para caminhar. A cada passo ela recua mais, mas nos mantém caminhando." As utopias reais precisam ser construídas sobre essa ideia — em cada nível: no bairro local, em redes regionais, na política planetária revoluções radicais são necessárias. Na história do caracol que corre contra o coelho movido a bateria, o caracol heroico é na verdade a metáfora para a economia que diminui, mas resiste. Partindo do Manifesto Ciborgue da autora feminista Donna Haraway — em um mundo onde os limites entre seres vivos e máquinas se dissolveram, construiremos uma nova abordagem ecológica, ou marcharemos para outra catástrofe com o mesmo hubris tecnológico?
SOMOS OS OCEANOS
A quinta voz vem dos mares — uma crítica ao crescimento azul pelos olhos de uma ecologista política. "Não conseguimos fazer isso em terra, vamos abrir uma nova página no mar" — uma nova onda de crescimento que se espalha da União Europeia ao Ásia-Pacífico à África está visando os oceanos. Mas nos infográficos, entre as belas formas, você não consegue ver peixes encharcados de petróleo, habitats marinhos destruídos, comunidades pesqueiras deslocadas.
Quando se fala em crise climática, o conceito chamado humanidade não é uma entidade única — os indivíduos e grupos dentro dela não carregam a mesma responsabilidade e não são afetados pelas consequências da mesma forma. Grandes frotas norueguesas e espanholas esgotaram os peixes em seus próprios mares. Por meio de acordos bilaterais estão vindo para as costas do Senegal e da Mauritânia. Pescadores de pequena escala tanto perdem acesso aos seus recursos quanto, quando forçados a migrar para a Europa, encontram a resposta "seus peixes podem vir, mas você não tem documentos, não pode entrar." Eco-refugiada — uma cadeia de injustiça que se estende da mineração de fundo do mar ao encontro dos pequenos estados insulares do Pacífico com industrialistas coloniais.
Mas há quem resiste. O Fórum Mundial dos Povos Pescadores está organizado desde 1997; trabalha em solidariedade com o movimento dos agricultores. As mulheres pescadoras — muitas vezes nem sequer reconhecidas como pescadoras, mas envolvidas em todo o processo de produção. Em Istambul há trinta e quatro cooperativas pesqueiras. O que significa cooperativa? Estruturas onde uma pessoa tem um voto, onde a liderança política importa. Algumas conseguem fazer vendas diretas de peixe, algumas não por causa de desacordos com o município. Mas há uma união — e essa união tem planos concretos como vendas diretas, modelos de loja cooperativa, projetos para apresentar o pescador. Vínculos podem ser construídos com cooperativas agrícolas — há iniciativas em Kadıköy, Koşuyolu, Beşiktaş. As cooperativas de produção e consumo agroecológico já estão funcionando. A organização em nível de bairro é crítica e esses modelos precisam se espalhar.
Somos os Oceanos, Somos os Povos.
FRAGMENTOS DE TEMPO
A última performance pertence a uma artista: partindo de ficções de extinção, coletando memórias das pessoas — fragmentos de tempo. Momentos pequenos, frágeis, esquecidos. Alguém lembra a primeira vez que foi chamada de "abla" (irmã mais velha) no ensino fundamental: tinha saído da sala de aula tarde, uma menina um ano mais nova disse "abla, sua caneta caiu." A sensação de ser irmã mais velha pela primeira vez — ela jamais esquecerá. Essas memórias serão carregadas para o futuro, transformadas em novas histórias. A artista pesquisa como o que existe pode ser levado a pontos de ação e momentos formativos, enquanto simultaneamente analisa o que estamos perdendo. Uma ponte da memória individual ao futuro coletivo — quanto mais memórias não vividas ou deixadas de lado você tiver, mais rico será o constructo futuro.
No encerramento, os rastros de cinco semanas são reunidos. Falamos sobre justiça climática, falamos sobre extinção. Falamos sobre a importância da biodiversidade, sobre greves climáticas, sobre os números que saem às ruas crescendo em um ano de um punhado para milhões. O direito da água de fluir, o custo real da gasolina, o pool genético da batata, os corpos sob o concreto — e agora os imaginários do futuro do processador. Um coletivo interativo jogou um "jogo de conexão" por todo o salão, reunindo propostas para o futuro dos participantes: fontes públicas, áreas comuns de compostagem, limitações de construção, alternativas aos copos descartáveis, lojas cooperativas. Pequenas, concretas, práticas começando pelo bairro.
Alguém pergunta: então por que, depois de ouvir tantas conversas sombrias desde esta manhã até esta hora, ainda estamos aqui? Por que não fugimos? A resposta é simples e poderosa: "Se fôssemos de caráter pessimista, a maioria de nós não estaria aqui agora. Estávamos fugindo, nos afastando. Precisamos compartilhar a felicidade para encontrarmos esperança uns nos outros e encontrarmos força para fazer algo." É por isso que tudo o que é feito — especialmente sobre esse assunto — é para passar a esperança dentro de nós uns aos outros energeticamente. O programa Sindirim termina assim: cinco objetos, cinco semanas, água-gasolina-batata-concreto-processador — partindo de objetos cotidianos para a crise planetária, daí para os imaginários do futuro, daí para a cooperativa no bairro, daí para um jogo de conexão no salão. O esforço de reunir o sentimento da artista, o fato da pesquisadora, o poder de ignição dos movimentos sociais — o que o birbuçuk diz desde o início. Pessoas em práticas de produção muito diferentes para normalmente se encontrarem se encontram cara a cara e começam a falar sobre as coisas. E a existência dessa conversa, a existência desse encontro, é em si uma ação.
Não sabemos o que estamos fazendo — mas não saber é um ponto de partida. E nesse ponto de partida, brincar como crianças, ser raivosa, ser fã do Tarkan, fundar uma cooperativa, caminhar lentamente mas resolutamente como um caracol — tudo é possível simultaneamente. Talvez a última palavra do programa Sindirim seja esta: existir com alegria em meio à destruição.