FRONTEIRAS
Limites planetários, limites sociais, travessias de fronteiras
Participantes: Neşe Özgen, Murat Can Tonbil, Alper Şen, Hale Tenger, Serkan Taycan, Evrim Kavcar
Moderadores: Serkan Kaptan, Yasemin Ülgen, Ayşe Ceren Sarı
Como projeto birbuçuk, realizamos nossa quarta sessão em torno do tema das fronteiras. 7 de outubro de 2017, Studio-X Istambul. As frases que restaram da conversa — abertas à reflexão e ao uso — foram editadas por nós. Seguindo o modelo dos artigos acadêmicos, preferimos apresentar o texto do encontro como produção coletiva. As identidades dos participantes são indicadas no início; para dar fluidez ao texto, as vozes foram anonimizadas e transformadas em uma fala coletiva.
OS DOIS LADOS DA FRONTEIRA
Quando dizemos fronteira, a primeira coisa que vem à mente é uma linha — uma linha fina num mapa. Mas no momento em que você tenta cruzar essa linha, entende: uma fronteira não é uma linha, é uma experiência. Ela deixa sua marca no corpo, é transmitida entre gerações, muda o curso da água, reescreve a memória da terra. A fronteira não é apenas um fato geográfico, mas também ficção jurídica, aparato militar, máquina econômica, ferida psíquica, categoria identitária e experiência corporal — tudo ao mesmo tempo.
O movimento através das fronteiras não é distribuído de forma igual. Alguns se movem livremente — privilégio de visto, a mobilidade do capital. Outros são impedidos ou criminalizados — migrantes, os pobres, corpos racializados. A pergunta é sempre a mesma: quem se move? Em que condições? Com a permissão de quem?
Meu avô foi exilado. A família do meu pai se tornou refugiada. Cresci com um medo que não conseguia nomear. As fronteiras passaram pelos corpos, pelas gerações.
Para entender a política das fronteiras, é preciso primeiro perguntar o que uma fronteira faz. Quem traçou esta fronteira? É real ou imposta? O que esta fronteira torna possível e o que impossível? As fronteiras não restringem apenas o movimento; determinam quem se torna o quê. Um "cidadão da fronteira" é um tipo de ser diferente de um sujeito sem fronteiras. As fronteiras produzem categorias — refugiado, migrante, cidadão, Outro.
Toda narrativa de cruzamento de fronteira reafirma a própria fronteira. "Cruzei a fronteira" ou "fiquei retido na fronteira" — ambas reforçam a realidade da fronteira. Mas e se falássemos dos comuns em vez disso? Por milhares de anos, as pessoas viveram em terras compartilhadas. Apenas nos últimos cinquenta a quinhentos anos essas terras foram nacionalizadas, cercadas, delimitadas. Quando dizemos "migrante", estamos, na verdade, falando de pessoas cujos comuns foram roubados — e não de pessoas fundamentalmente deslocadas. Recuperar a memória do que era comum antes das fronteiras abala a naturalidade delas.
A PRECE DA CHUVA E A JUSTIÇA
Alguém que fala dos limites do jornalismo nos leva a um lugar bem diferente: às aldeias da Anatólia castigadas pela seca. O que essa pessoa encontra ao pesquisar a tradição da prece da chuva é muito mais do que um ritual meteorológico.
O alimento é reunido, cozinhado junto, levado à família mais pobre da aldeia. Um velho diz: 'Talvez, pelo bem desses pequenos animais, Deus aceite nossa prece.' Isso é justiça não como conceito, mas como prática vivida. A sacralização da dependência mútua.
A prece da chuva é na verdade uma prática de fronteira — ela se encontra na fronteira entre o visível e o invisível, o científico e o espiritual, o individual e o coletivo. A pessoa que a pesquisa descobriu o ritual enquanto reunia notícias sobre o clima. Situa-se em algum lugar entre o jornalismo profissional e o ativismo, entre reunir informação clara e viver com a incerteza. Não consegue permanecer dentro das fronteiras profissionais do mundo do jornalismo, porque aquilo que narra transborda essas fronteiras. Ela coleta informação clara sobre muros, barragens, conflitos — mas carrega uma ambiguidade permanente sobre o que fazer com esse conhecimento.
Em momentos de crise há clareza — um muro, uma barragem, um conflito; visível, documentável. A crise gera projetos. Mas fora dos tempos de crise, a ambiguidade cobre tudo, e a sensação de dispersão cresce. Como permanecer nessa ambiguidade? O não resolvido, se não for paralisia, talvez seja um campo de possibilidades. Deve-se resistir ao impulso de resolver muito rapidamente. Mover-se com a ambiguidade — mas envolvendo os outros, impedindo que a ambiguidade se torne paralisia.
RESÍDUOS E TESTEMUNHO
Alguém que pratica videoativismo explica que a documentação não é um ato simples de registro. Ao trabalhar com migrantes, essa pessoa passou a se ocupar dos resíduos — os que ficam para trás, os que não são contados, os excluídos da narrativa oficial. Os resíduos, para além de um conceito econômico, representam as pessoas, as histórias e as experiências tornadas invisíveis.
Em certo ponto, não estávamos mais documentando fronteiras — as fronteiras nos cruzaram. O abismo entre a imagem filmada e a experiência vivida tornou-se o próprio material. Nos tornamos aquilo com que trabalhávamos.
A documentação participa do ato de fazer mundos. Ela torna visíveis atores apagados. Mas a própria documentação também traça uma fronteira — entre este lado e o outro lado da câmera. Quem fala? Quem escuta? Em benefício de quem? Essas perguntas constituem tanto o poder quanto a responsabilidade ética do testemunho.
O conceito de "resíduos" aqui é muito mais do que um termo econômico. É toda experiência, toda história, toda pessoa deixada fora da narrativa oficial. O ato de coletar — arquivar, redistribuir — é uma prática realizada sem qualquer reivindicação de autoria. Coletar não é apropriar-se, mas transmitir. E essa transmissão é, em si, uma violação de fronteira: força a fronteira do que é considerado valioso, a fronteira do que conta como notícia, a fronteira de quem tem direito à palavra.
MAPAS INVERTIDOS
Alguém que faz arte fala do efeito de virar o mapa-múndi de cabeça para baixo. A África no topo, a Europa embaixo. A mesma geografia — uma resposta diferente do sistema nervoso. Essa inversão visual expõe o quão artificiais são nossas divisões normalizadas.
Penas brancas na entrada — suavidade, cuidado, começo. As últimas fileiras, negras — inquietação. Os visitantes se moviam pelas penas em direção às estrelas. A perspectiva cósmica tornou as fronteiras absurdas.
A prática artística não é a ilustração de conceitos. É um modo de produzir conhecimento que não pode ser alcançado por outros meios. Mapas invertidos, instalações de penas, gravações de respiração — essas não são escolhas estéticas, mas intervenções epistemológicas.
Para quem faz arte e vem de uma família de refugiados, a fronteira nunca foi um conceito abstrato. Essa pessoa cresceu em İzmir, mas nunca foi bem "de lá". A experiência de deslocamento que a família carrega lembra constantemente a dimensão corporal da fronteira. Em sua obra "Strange Fruit", o mundo é virado de cabeça para baixo. O hemisfério sul acima, o norte abaixo. É o mesmo planeta, mas quando a perspectiva muda, o sistema nervoso entra em choque. Nossa hierarquia normalizada não é outra coisa senão uma escolha cultural que põe o norte em cima.
Trabalhar na fronteira entre diferentes modos de pensamento: caminhar, respirar, coletar-testemunhar, inverter. Todos fazem a mesma pergunta: quando as fronteiras se deslocam, como conhecemos de forma diferente?
O QUE SE CHAMA BARRAGEM DE SEGURANÇA
Alguém que caminha pelas Florestas do Norte, no limite da cidade, segue os rastros das pedreiras e, com eles, as fronteiras da cidade. Quanto mais pedra é extraída, mais longe a fronteira se desloca. Somos todos cúmplices em mover essa linha de extração.
Em Şırnak e Hakkari, ao longo da fronteira, onze barragens foram planejadas, e algumas delas construídas — barragens sem nenhuma função de gestão hídrica. Inteiramente militares. O conceito de 'barragem de segurança' não existe na literatura especializada internacional.
A água não conhece fronteiras, mas as fronteiras definem a água. Ao alterar o curso da água, as barragens também redefinem as condições de vida de todo ser vivo naquela região. As fronteiras ecológicas precedem as fronteiras políticas e as estruturam. Não se pode separar água, geologia e ecologia das fronteiras políticas — as fronteiras reformulam ecossistemas. Um projeto de laboratório hídrico percorre diferentes regiões, reunindo atores locais — agricultores, engenheiros, ativistas, pesquisadores — em torno de questões de água. O papel de facilitação importa: não se trata de ser especialista, mas de criar espaço para que pessoas diferentes pensem juntas sobre problemas hídricos compartilhados.
A rota de caminhada se torna uma ferramenta de monitoramento. As fotografias dos participantes se tornam um documento coletivo da transformação urbana. Caminhada participativa contra o planejamento especializado — a democratização da produção do conhecimento.
Mas a água não é apenas o problema de Istambul. Outra voz, engajada no mapeamento da justiça ambiental, fala de uma rede global: Índia, América Latina, África. Quais comunidades carregam o fardo ecológico do crescimento econômico? A quem pertencem os recursos? Quem lucra, quem sofre? Os próprios mapas geram diálogo — ativistas inserem dados, reenquadram suas próprias lutas como parte de um padrão global. Os pesquisadores não estudam as comunidades; eles ajudam comunidades já organizadas a articular suas próprias análises. A produção do conhecimento passa do extrativismo acadêmico para uma prática centrada no movimento.
POSICIONAR-SE COMO PÓ DE ESTRELAS
Alguém que se mudou para Mardin começa seu relato com a história do gafanhoto. Na tradição xamânica, o salto do gafanhoto sinaliza uma mudança de vida — boa ou má, incerta. Essa pessoa fica lá quatro anos. O salto ainda a move.
No exame de livre-docência, perguntaram: 'Como você se posiciona?' Veio a resposta mais honesta: 'Eu me posiciono como pó de estrelas.' Minha prática recusa o posicionamento fixo; permanece dispersa, elementar.
Essa dispersão não é uma fuga, mas uma postura ética. Ela pesquisa a diferença entre recusar o luto e viver o luto — línguas diferentes, contextos diferentes, povos diferentes. Onde as palavras se mostram inadequadas, ela começa a coletar os sons da respiração de pessoas que viveram traumas. Mas usar as gravações de respiração de outros não é, no início, ético. A solução: primeiro gravar a própria respiração ao falar de suas próprias perdas com um psicólogo. Só então surge o direito de trabalhar com os sons de outros. Perigo, desconforto, o cruzamento de limites — necessários para o crescimento. Os mergulhos da infância, o trabalho de respiração através do trauma, aprender a viver em lugares desconhecidos, recusar a separação entre arte/vida/conhecimento — essas são todas partes do mesmo movimento.
Essa pessoa, que deixou uma escola particular depois de Gezi para fundar uma Faculdade de Belas-Artes na Universidade Artuklu de Mardin, descreve o medo de se desligar de Istambul com a metáfora do peixe fora d'água. Mas em Uganda, em Ruanda, no fundo de um ônibus sem suspensão, sentindo o chão diretamente, testemunhando a recuperação pós-traumática, ela se sente mais "em casa". Esse "desconforto" é mais autêntico do que um senso de pertencimento baseado na segurança.
Ela faz mapas cifrados — enquanto mapas convencionais mostram coordenadas, seus mapas mostram como um lugar se revela através do olhar, através da atenção corporal. Em Mardin, na fronteira entre a cidade velha e a cidade nova, ela desenha uma grande face rochosa durante oito horas, enquanto, lá embaixo, Erdoğan discursa. O desenho se torna um mapa: em qual direção cada ponto está voltado, o que é visível em cada direção — linhas de eletricidade, um antigo cemitério armênio, uma fortaleza onde ninguém pode entrar. Pressionar demais com a caneta abre um buraco no papel — a metáfora física de como a atenção pode causar dano.
DOCUMENTAÇÃO OU REPARAÇÃO?
Esta é a pergunta mais marcante da sessão: estamos apenas documentando, ou é possível a reparação? Talvez apenas a autorreparação seja possível — mas uma autorreparação coletiva requer um salto evolutivo. A documentação não é passiva — ela torna visíveis atores apagados, participa do ato de fazer mundos, corre o risco de transformar o que registra. Mas ir além da documentação, avançar rumo à reconstrução do mundo — ainda não está claro como seria isso. A pergunta permanece aberta, e talvez deva permanecer.
Os animais não conhecem fronteiras — a água flui sob os muros. Porque traçamos fronteiras, toda a ecologia muda.
Na discussão aberta, uma voz propõe parar de celebrar o cruzamento de fronteiras e, em vez disso, questionar a própria fronteira. As narrativas de cruzamento de fronteiras relegitimam a fronteira. O que realmente importa é lembrar o que era comum antes da fronteira — a água, a terra, as práticas. Esse trabalho de memória histórica abala a naturalidade das fronteiras.
Outra voz fala de como o gênero funciona como fronteira. Alguém que trabalha como modelo e para de depilar as pernas recebe ameaças de estupro. Quando você cruza certas fronteiras, encontra o poder que protege aquela fronteira. O poder quer que você permaneça "legível", compreensível dentro das categorias existentes. Os corpos se tornam marcadores de fronteira; recusar a conformidade é recusar a categorização.
As vozes que se reuniram nesta sessão, embora vindas de disciplinas diferentes, convergem numa pergunta comum: como podemos entender as fronteiras sem naturalizá-las? Sem romantizar o cruzamento de fronteiras, sem idealizar a ausência de fronteiras, e reconhecendo que as fronteiras ao mesmo tempo protegem e restringem. Algumas fronteiras nos protegem, algumas nos permitem pensar, algumas nos restringem injustamente. A distinção entre fronteiras impostas e escolhidas importa. Quem pesquisa traça fronteiras analíticas para entender — mas não confunde essas fronteiras analíticas com as vividas. Distingui-las é uma prática contínua.
Me senti só. Esta sessão rompe a solidão e mostra que trabalhos paralelos estão sendo feitos em diferentes disciplinas. Não precisamos fazer isso sozinhos.
Uma voz fala do desejo de colaboração: o entusiasmo de reunir o que coletou de forma dispersa com o que outros coletaram de outras maneiras, e de transformar essas coleções em conjunto. Outra quer abrir um diálogo sobre como o poder do Estado opera por meio da água e das barragens. Outra pergunta como as fronteiras internalizadas moldam o que consideramos possível. Cada voz apresenta sua própria prática como uma proposta — não como uma resposta, mas como um convite a pensar junto.
A energia da sessão sobre fronteiras é a energia da ambiguidade produtiva — orientada não para resolver perguntas, mas para aprofundá-las, não para escrever prescrições, mas para permanecer na curiosidade. Os participantes expressam o alívio de encontrar outros que fazem perguntas semelhantes em campos aparentemente distantes. Nenhuma disciplina é suficiente sozinha. Entender as fronteiras requer modos corporais, artísticos, ativistas, acadêmicos e afetivos simultaneamente.
O compromisso ético subjacente ao trabalho é claro: tornar visível, testemunhar e sustentar uma prática de solidariedade através das fronteiras — atentando para o modo como nossas próprias práticas de documentação podem reescrever as fronteiras que buscamos entender.