SOLO
Saúde do solo, soberania alimentar, transformação agrícola
Participantes: Rana Söylemez, Ahmet Atalık, Deniz Pelek, Müge Alaboz, Alper Aydın, Gamze Gündüz, Bünyamin Atan
Moderadores: Serkan Kaptan, Yasemin Ülgen, Ayşe Ceren Sarı
Como projeto birbuçuk, realizamos nossa nona sessão em torno do tema do solo. 19 de janeiro de 2019, Studio-X Istambul. As frases que restaram da conversa — abertas à reflexão e ao uso — foram editadas por nós. Seguindo o modelo dos artigos acadêmicos, preferimos apresentar o texto do encontro como produção coletiva. As identidades dos participantes são indicadas no início; para dar fluidez ao texto, as vozes foram anonimizadas e transformadas em uma fala coletiva.
A PRIMEIRA GOTA DE CHUVA
No momento em que as primeiras gotas de chuva atingem uma superfície de solo seco e a terra começa a se molhar, a atividade dos microrganismos do solo chega ao máximo. Eles acordam quando veem a água — e aquele cheiro tão bom é o cheiro das substâncias que eles liberam. Geosmina. Petricor. O que chamamos de cheiro de terra é na verdade o grito de alegria de bilhões de seres vivos.
Do jeito que vocês tratam o solo, ele trata vocês, amigos. Quando vocês o tratam mal, mesmo sem perceber, ele não dá colheita, trata vocês mal também.
O solo não é um substrato sem vida — é um sistema vivo, um organismo com memória. Abriga bilhões de microrganismos em cada grama, e esses seres vivos são muito mais antigos, muito mais resilientes do que os seres humanos. Os fertilizantes nitrogenados comerciais produzem óxidos de nitrogênio — um gás de efeito estufa 300 vezes mais potente que o dióxido de carbono. Com o uso repetido de fertilizantes químicos, acumulam-se compostos salinos e cai a capacidade de retenção de água do solo. A irrigação excessiva dissolve os nutrientes do solo, causando problemas de salinização — exatamente o que está acontecendo na região do GAP. O solo devolve o que lhe fazem: bem cuidado, torna-se fértil; negligenciado, torna-se árido. Isto não é metáfora, e sim realidade bioquímica. A relação humano-solo é o microcosmo de todas as relações ecológicas.
Uma voz que há quinze anos preside a seção de uma câmara profissional relata uma jornada que vai de pessoa comum à representação sindical, à direção do sindicato e à presidência da câmara. Depois de ver como a ciência é manipulada — de perceber que as menores coisas ganham um polimento espalhafatoso enquanto certas verdades ficam de lado —, veio a entrada na luta contra os OGM. A luta da plataforma contra os OGM segue desde 2004 — resistência militante ao controle das sementes pelas corporações. A plataforma contra a mercantilização da água foi fundada antes do Fórum Mundial da Água de 2009, mas, como reunia organizações com fontes de financiamento e motivações diferentes, a fragilidade era inevitável. A organização dos agricultores é um pré-requisito da emancipação agrícola na Turquia — mas a cooperativização tem de enfrentar a desigualdade estrutural, não virar fachada institucional.
Os números são dolorosos: nos últimos quinze a dezesseis anos, os agricultores turcos abandonaram 3,2 milhões de hectares de terra agrícola — uma área maior que a Bélgica. Não se trata só de perda de área; cada campo abandonado leva consigo o conhecimento que gerações acumularam. No entanto, a Turquia tem 4 milhões de hectares de terra arável em pousio — uma área do tamanho dos Países Baixos, com potencial de segurança alimentar, mas não utilizada. Os preços agrícolas são fixados nos mercados globais de commodities: o algodão chinês rebaixa o algodão turco, a propriedade rural deixa de dar lucro, a juventude rejeita o campo — tanto por necessidade econômica quanto por deriva cultural. A "revolução" da agricultura química dos anos 1960 prometeu aumentos de rendimento — os agricultores se tornaram dependentes de insumos que não podiam pagar, e a degradação do solo aprofundou a dependência.
Os ativistas devem escolher pelo que lutam — energia, água, sementes. Dispersar-se em todas as direções leva à fadiga de plataforma e ao colapso — quando as condições políticas mudam, esse colapso se acelera. A organização de longo prazo requer resiliência emocional e segurança material; sem elas, até as melhores intenções se dissolvem.
NÃO HÁ ECOLOGIA SEM TRABALHO
A pesquisa em agricultura ecológica examina a produção, mas ignora as condições de trabalho. Se a produção orgânica e sustentável ganha sentido numa região enquanto a exploração dos trabalhadores aumenta, essa sustentabilidade é oca — até enganosa. A exposição a pesticidas afeta diretamente a saúde dos trabalhadores, mas quem carrega o fardo mais pesado dessa exposição são os trabalhadores menos protegidos, da faixa de menor renda. A justiça do trabalho é uma questão ecológica — e a ecologia é incompleta sem a justiça do trabalho.
Por que os trabalhadores agrícolas sazonais são de Cizre, Şırnak? Por que de lá? A maioria dos trabalhadores de Cizre se instalaram no centro do distrito depois do deslocamento forçado e, mais tarde, viraram trabalhadores sazonais.
Uma voz da sociologia — graduação e mestrado na área, extenso trabalho de campo de 2009 a 2015 em Adana, Mersin, Manisa, Bursa e Cizre, agora em pleno doutorado — trabalha com transformação rural e trabalho migrante. Reflexividade metodológica: a geografia político-econômica determina onde os problemas ecológicos emergirão e se tornarão visíveis. Desde os anos 1990, a transformação rural se desdobrou em três níveis: os perfis dos trabalhadores agrícolas sazonais mudaram — de pequenos agricultores que complementavam a renda para trabalhadores inteiramente sem terra, inteiramente vulneráveis; os produtores foram transformados — não conseguem mais produzir como faziam sob as novas condições; a geografia espacial se deslocou — o trabalho foi movido para diferentes regiões, diferentes condições.
No trabalho agrícola há uma hierarquia étnica: trabalhadores turcos recebem os salários mais altos, trabalhadores curdos, salários intermediários — alguns deles sem terra por causa do deslocamento forçado dos anos 1990 —, os refugiados sírios trabalham pelos salários mais baixos, às vezes sem salário algum. Isso não é acidental, e sim estrutural — o produto das políticas do Estado turco (assimilação, deslocamento forçado) e das crises globais de refugiados.
O mapeamento geoespacial dos padrões de trabalho e fluxos de migração é realizado com QGIS. O conceito de "gueto rural" emerge — assentamentos de tendas permanentes em Adana-Mersin para populações sírias e curdas deslocadas. Esses não são acampamentos sazonais temporários; eles criam comunidades presas, sem saída, pessoas que vivem lá o ano inteiro. A Rede de Comunicação sobre Migração de Trabalhadores Sazonais se reúne duas vezes por ano desde 2010 — pesquisadores, ativistas e trabalhadores da sociedade civil de diferentes disciplinas. A Rede de Pesquisa Rural foi fundada recentemente; uma rede de migração ligada a um instituto de pesquisa também organiza seminários.
Trabalho infantil, disparidades salariais de gênero, despossessão — a vulnerabilidade criada pela falta de terra — essas são as realidades que a pesquisa em agricultura ecológica ignora. A ecologia não pode ser entendida sem o trabalho, o trabalho sem a ecologia — não são lutas separadas.
A pergunta permanece aberta: como podemos entender a ecologia sem entender o trabalho?
A RELAÇÃO DE CONFIANÇA
Uma voz do ensino de música, que recusou emprego no Estado ou no setor privado e cuja consciência ambiental foi moldada pelo movimento de resistência às hidrelétricas e pela experiência no Vale do Alakır — uma jornada que evoluiu de um curso de permacultura para o trabalho numa comunidade alimentar.
Cooperativa de Kadıköy: estabelece uma relação direta entre produtores e consumidores. Observa-se não apenas a sustentabilidade ambiental, mas também a justiça nas relações — condições de trabalho, emprego de refugiados, dinâmicas de gênero em domicílios agrícolas são monitorados e avaliados regularmente. Ekorita: um mapa ecológico interativo combinando espaços ecológicos, fóruns, notícias e recomendações — uma resposta à fragmentação da informação. Plataforma Lixo Zero: rejeição do desperdício no ponto de produção, além da reciclagem — transformação do consumo, não apenas gestão de resíduos.
Há muita intenção, mas na hora de agir estamos meio parados agora.
As comunidades alimentares e cooperativas operam através de organização horizontal — tomada de decisão por consenso, sem hierarquia, participação igual, transparência. Os encontros presenciais mensais criam solidariedade, reduzem a pegada de carbono, estabelecem relações de confiança. Redes pequenas e distribuídas são mais resilientes e politicamente mais significativas do que ONGs centralizadas. A relação de confiança — não um contrato, mas uma relação face a face — é a fundação da economia alternativa.
Mas o esgotamento dos voluntários é real. Crescer sem abrir mão dos princípios é difícil. Como depende de trabalho voluntário, o projeto Ekorita não avança, no momento, na velocidade desejada. As intenções são muitas, a ação sustentável é escassa — isso não é apenas um problema individual, mas estrutural. A sustentabilidade baseada em voluntários é uma fraqueza estrutural: as pessoas se esgotam, os projetos param, reiniciar se torna um pouco mais difícil a cada vez. Sem condições materiais — tempo, espaço, segurança de renda — o ideal de organização horizontal permanece no ar.
A jornada do ensino de música para a permacultura, da resistência às hidrelétricas à cooperativa alimentar, é a história de como a transformação individual pode evoluir para a organização social. Reunir-se uma vez por mês em algum lugar — um ato tão simples, com um significado tão profundo.
OS MAIORES MICRÓBIOS
Para uma voz nascida em Ordu e criada na riqueza ecológica do Mar Negro, mudar-se para Ancara para cursar a universidade foi uma experiência de deslocamento. Essa experiência é o ponto de partida de uma prática de land art. Em 2014, uma pesquisa de mestrado sobre land art na Turquia, formação em ilustração científica, um doutorado sobre o diálogo entre corpo e natureza.
Iniciativa de Arte Contemporânea Pelisiyar (2013): intervenções em espaços históricos abandonados e ecologicamente transformados — o próprio espaço se torna material e mensagem. "Os Maiores Micróbios" — um projeto de performance/arte de rua em andamento. Inspirado por uma metáfora de um autor chinês: se os micróbios tivessem mãos e latas de spray, escreveriam "Os Maiores Micróbios" em todo lugar. 350 locais em Paris, estendendo-se a Ordu, Ancara e Konya. Os micróbios são os sobreviventes definitivos — eles continuam a viver mesmo após a devastação nuclear. Somos transitórios, eles são permanentes.
Mesmo que a humanidade deixe de existir neste planeta que habitamos, eles continuarão a viver.
Uma evolução de ver a natureza e a arte como separadas, para entender que a história da arte incluiu a land art (desde os anos 1960), para a ilustração científica que aprofunda o conhecimento da flora da Turquia e para a performance que se torna ecologia do corpo. O corpo não é um observador de fora da paisagem, mas uma parte biológica dela. A maioria dos artistas preocupados com ecologia não sente profundamente os processos naturais — é preciso se aproximar com a percepção de um agricultor: observação contínua, análise cuidadosa, conexão emocional profunda.
O projeto D8M: colaboração com uma empresa de buldôzeres em Istambul. Pesquisa sobre cultura de jardim e paisagem em Paris, ensino acadêmico (em Konya, longe de Ancara). Entrar em ação — uma transição do ativismo baseado na esperança para o ativismo baseado no movimento. Não se espera, move-se. Os movimentos — não singulares, mas plurais, não lineares, mas dinâmicos — continuam. As pessoas falam de colonização espacial, de agricultura em Marte — mas mesmo que a humanidade desaparecesse deste planeta, os micróbios continuariam a viver. O excepcionalismo humano pode ser o maior obstáculo para o pensamento ecológico.
FEIRAS DE PRODUTORES
Uma voz do design, com formação em arquitetura e mestrado em tectônica digital, que dá aulas na universidade e pesquisa métodos de fabricação digital — pesquisa em design voltada ao artesanato, às ferramentas e ao aprender fazendo. As feiras agrícolas da Bacia do Menderes (Ödemiş, Tire, Nazilli, Karacasu) foram estudadas no âmbito de uma pesquisa feita para uma bienal de design — junto com uma pessoa da arquitetura que pesquisa feiras e outra da engenharia agronômica e da gastronomia. As redes de produção-consumo constituem as relações urbano-rurais — entender essas redes significa entender o sistema alimentar.
Mapeado no trabalho de campo 2017–2018: mudança sazonal e função social das feiras de produtores, cadeias de suprimentos, estética das barracas de feira — toldos e coberturas coloridas sinalizando o tipo de produto —, perfis de produtores, conhecimento intergeracional, infraestrutura, margens de lucro.
Tia Vildan em Tire: um ciclo de trabalho de 40 horas — preparação do jardim, montagem da barraca, vendas — para margens de lucro mínimas. Essas 40 horas expõem o trabalho oculto por trás do discurso do "alimento local". Quão profunda é nossa consciência como consumidores de alimentos locais e orgânicos? A distância entre a mão que compra o produto e a mão que o cultivou não é apenas física, mas também de conhecimento. Nem uma análise do lado da produção nem do lado do consumo é suficiente — a análise relacional é central. As feiras são terceiros lugares onde a habilidade do produtor (curadoria da abundância) encontra a disposição do consumidor de se engajar.
Escalas diferentes revelam relações diferentes: a lógica do produtor no nível do campo é fundamentalmente diferente da apresentação no mercado. A documentação visual no Instagram foi usada deliberadamente — para deslocar a conversa de "o que é isso?" para "de onde vem? você sabe quem o cultivou? em que condições?" Os toldos coloridos sinalizam o tipo de produto, a variedade sazonal reflete a função social — a feira não é apenas um lugar de compras, mas um espaço de troca de conhecimento. A relação produtor-consumidor cria — ou pode criar — uma rede de confiança além da lógica de mercado.
A ARQUITETURA DO SOLO
Uma voz da arquitetura, nascida em Mardin, cuja família remonta a uma tradição sufi de raízes profundas; passou da educação na madrasa para o ensino formal e cresceu com o conhecimento agrícola da família e a guarda da paisagem da região de Sultan Şeyhmus (25 graus contra os 40 de Mardin; uma rara zona verde). Em 1993, durante o conflito curdo, deslocamento forçado — a família se mudou da aldeia para o centro do distrito de Kızıltepe. Testemunha de amigos de infância que se tornaram trabalhadores agrícolas sazonais.
Um projeto de aceleração de turbinas eólicas do TÜBİTAK (escola secundária), duas patentes, ativismo estudantil, competições de matemática e xadrez — uma mente multifacetada. Uma proposta de moradia para trabalhadores agrícolas sazonais em Sarıcakaya, Eskişehir — uma zona de microclima onde se cultiva aspargo. A análise da evolução espacial dos assentamentos de trabalhadores entre 2002 e 2017 com o Google Earth — quinze anos de mudança, legíveis em imagens de satélite. Uma proposta de arquitetura em adobe inspirada nas casas de Harran e na técnica de resfriamento passivo do malkaf (torre de vento) — sistemas multicamadas que usam a terra como principal material isolante. O plano diretor: área de cozinha compartilhada, espaços sociais, integração de permacultura — trabalhadores cultivando sua própria comida (tomates, berinjelas, pimentões). Habitação digna, vida saudável, capacidade organizacional — estas estão diretamente conectadas a decisões arquitetônicas.
A arquitetura rural também é uma ecologia sustentável. Mardin é arquitetura sem arquitetos, uma cidade que se assentou por si mesma. Sabemos que o melhor isolante é a terra.
A arquitetura não é separada da ecologia. O design habitacional afeta diretamente a dignidade, a saúde e a capacidade organizacional dos trabalhadores agrícolas. Os trabalhadores sazonais vivem em tendas, barracões, contêineres — esses espaços traçam não apenas fronteiras físicas, mas sociais. Um espaço de vida digno é um pré-requisito para se organizar.
A passagem da avelã para o kiwi — uma transformação vivida numa família — trouxe novas épocas de colheita, novas receitas, novas práticas sociais e mudou os ritmos de vida da comunidade. Uma cultura do kiwi se formou? Quanto tempo leva para uma cultura se formar? Quando a política agrícola elimina um produto agrícola, apaga também a cultura e os sistemas de conhecimento ligados a ele — a economia familiar da colheita de avelãs, os rituais comunitários, a ordem sazonal desaparecem. Os produtos agrícolas não são unidades econômicas; são vetores culturais, portadores de conhecimento, formas concretas de relações sociais.
O conhecimento agrícola da família na região de Sultan Şeyhmus — conhecimento transmitido através de gerações, aprendido vivendo — foi cortado com o deslocamento forçado de 1993. Essa ruptura não é apenas geográfica, mas epistemológica: quando o conhecimento é deslocado, como uma semente arrancada de seu solo, seca.
O ROMA BOSTANI E AS SEMENTES
Uma voz da engenharia de materiais, que trabalhou cinco anos na mídia e, depois de Gezi — sobretudo depois de aprender permacultura —, viveu uma "iluminação" e deixou o trabalho corporativo para se voltar à produção urbana de alimentos e à autossuficiência.
O Roma Bostanı — uma horta comunitária — é uma retomada do espaço público contra a tentativa do município de convertê-lo em um café comercial, prova de que a agricultura urbana é possível. Fabricação de sabão — transformando o consumo pessoal em produção doméstica natural. Guarda de sementes — multiplicando e distribuindo sementes locais, uma prática recém iniciada. Organização de comunidades alimentares.
O arcabouço da permacultura: como podemos atender nossas necessidades com dano mínimo à natureza e como podemos converter produtos em insumos? Para quem vive na cidade, estar desconectado da produção não é destino — a dependência do consumo pode ser reduzida por meio do conhecimento material, da produção direta e das redes de compartilhamento. Fazer sabão, guardar sementes, montar uma horta — essas parecem pequenas ações, mas cada uma é um ponto de desconexão do sistema. No Roma Bostanı, a batalha judicial foi vencida, mas a acomodação que veio depois lembra que o engajamento precisa ser contínuo. Vencer não é suficiente; o que foi conquistado deve ser protegido.
A comida é muito importante. Nossa produção local caiu de um jeito inacreditável. O que podemos fazer localmente?
É esta pergunta que guia todo o encontro.
A RESPIRAÇÃO DO SOLO
Este é o nono e último encontro do programa Solunum do birbuçuk. Ao longo de mais de dois anos, completou-se uma jornada: da água à biodiversidade, do metabolismo às fronteiras, do clima à mineração, do gênero à energia, ao solo. Cada encontro trouxe pessoas de diferentes disciplinas para a mesma mesa — sem hierarquia, tempo igual, narrativa pessoal, ausência de estrutura formal.
O encontro sobre solo é tanto resumo quanto exame dessa jornada. Sete apresentações — da organização de uma comunidade alimentar, do ativismo agrícola, da sociologia do trabalho, do voluntariado numa cooperativa alimentar, da land art, da pesquisa em arquitetura e da arquitetura de terra — tocaram a mesma questão por caminhos diferentes. E na discussão livre essas vozes se misturaram, se complementaram, às vezes se contradisseram. Mas o consenso fundamental que emerge é claro: o solo é um sistema vivo, o trabalho não pode ser separado da ecologia, as relações de confiança são a fundação da economia alternativa, os sistemas de conhecimento são apagados junto com os produtos agrícolas e as práticas do solo.
A despolitização da ecologia — shows "Pela Natureza", branding de sustentabilidade — oculta as causas sistêmicas. Discutir a mudança climática enquanto se fuma um cigarro é evitar fazer a conexão pessoal-política. Design e sustentabilidade são amplamente discutidos na academia, mas raramente levados à prática. Inversamente, o conhecimento de ativistas e praticantes raramente chega aos contextos acadêmicos. Reuniões de três horas são insuficientes para uma organização contínua — oficinas de acompanhamento, pequenos grupos de trabalho, documentação são necessários.
Tensões dominantes: entre urgência e paciência — a lentidão da construção de relações enquanto a crise climática se acelera. Entre a crítica sistêmica e a mudança gradual — como permanecer motivado? Entre a fragmentação do conhecimento pelas disciplinas e a necessidade de um arcabouço comum. Escala: as ações individuais são insuficientes, a mudança estrutural é necessária mas parece impossível.
A maioria dos projetos trabalha em escalas intermediárias: não a política global, não o consumo individual, mas redes de bairro e regionais — mercados, comunidades, oficinas colaborativas. A mudança surge de práticas pequenas acumuladas e organização local — não de implementação de cima para baixo. Os quinze anos de persistência organizativa no ativismo agrícola, os quase quatro anos de dedicação ao Roma Bostanı a partir da organização de uma comunidade alimentar, os muitos anos de mergulho etnográfico na sociologia do trabalho — essas escalas de tempo exigem uma resiliência emocional e uma segurança material que a maioria das pessoas não tem.
Mas o solo nos ensina algo: quando a primeira gota de chuva cai sobre a superfície seca, os microrganismos acordam. As condições não precisam ser perfeitas para o despertar — uma gota é suficiente. O movimento — não singular, mas plural, não linear, mas rizomático, não centrado, mas distribuído — ocorre simultaneamente por muitas práticas, em diferentes escalas, em diferentes geografias. O programa Solunum foi ele próprio essa prática: criou continuidades e relações inesperadas, pessoas de diferentes disciplinas aprenderam a fazer as mesmas perguntas em linguagens diferentes, os participantes perceberam que continuarão trabalhando em campos sobrepostos. Da horta comunitária à feira de produtores, da tenda do trabalhador sazonal à arquitetura de terra, do mundo dos micróbios à cooperativa alimentar — todos são pontos nodais da mesma rede.
Documentação, publicação e futuras séries de oficinas foram propostas — oficinas voltadas à produção, painéis, sessões de cinema, pequenas exposições. Produções escritas — o texto de cada encontro, um livro que também reunirá as pesquisas. Este encontro não é um fim, mas um ponto nodal numa rede em andamento.
Metabolismo socioeconômico — como nós, como comunidades, organizamos nossos arredores, insumo de fora, processamento por dentro, produto para fora. Unidade do conhecimento — não permanecer vinculado a uma única disciplina, olhar o todo. Rizoma — redes sem centro, que se multiplicam horizontalmente e continuam mesmo quando se rompem. Esses três conceitos são o núcleo do programa Solunum do birbuçuk, e no encontro sobre o solo foram postos à prova pela última vez, mas em sua forma mais concreta. Como o solo: cíclico, vivo, despertando com a primeira gota mesmo quando parece seco.